Nova rota combina caminhada, navegação e caiaque em sete dias de expedição por um território onde montanhas, áreas alagadas e comunidades tradicionais convivem em uma das paisagens mais singulares do Brasil
Quando se pensa no Pantanal, a imagem mais comum é a de uma imensa planície alagável cortada por rios e repleta de vida silvestre. Pouca gente imagina que, no extremo oeste de Mato Grosso do Sul, quase fronteira com a Bolívia, uma cadeia de montanhas rompe essa paisagem e cria um dos cenários mais surpreendentes do país.
É ali que está a Serra do Amolar, um território com 80 quilômetros de extensão e formado pelos últimos eventos de soerguimento da Cordilheira dos Andes (cerca de 2,5 milhões atrás), que reúne morros rochosos com até 1.000 metros de altura, florestas, áreas inundáveis, baías, comunidades tradicionais e uma das maiores concentrações de biodiversidade do Pantanal, que abriga a segunda maior densidade populacional de mamíferos da Terra, com 0,724 espécies por 1 mil km².
A área exerce uma função primordial como barreira natural para brecar o fluxo das águas de nascentes e garantir que processos de inundação ocorram na bacia do Alto Paraguai, processo de vital importância para o sistema hidrológico e de regulação da vida selvagem de centenas de espécies.
Apesar de sua relevância ambiental e cultural – é reconhecida como Reserva da Biosfera pela UNESCO – a região permanece pouco conhecida fora dos círculos da pesquisa científica, da conservação e dos moradores locais. Agora, uma nova rota de longo percurso pretende aproximar visitantes desse território. Trata-se da Travessia Guadakan, que faz parte da Rede Trilhas (https://www.redetrilhas.org.br/w3/), representa em uma experiência que permite visão 360 graus do Pantanal e percorre a Serra do Amolar em uma expedição de sete dias que tem caminhada, navegação e caiaque.
Ao longo do percurso, os participantes podem atravessar trilhas em áreas remotas, percorrer rios e baías pantaneiras, visitar comunidades locais e conhecer paisagens raramente acessadas por quem visita o bioma. Mais do que um roteiro de aventura, a proposta é revelar diferentes camadas de um território moldado pela água, pelas montanhas e pela presença humana.

Com a Travessia Guadakan, o visitante tem a oportunidade de compreender como funciona uma das maiores áreas úmidas continentais do planeta. O Pantanal desempenha um papel estratégico na regulação da água em escala internacional na América do Sul, contribuindo para a manutenção de fluxos hídricos que sustentam atividades econômicas, cadeias alimentares e modos de vida em diferentes territórios. Alterações nesse sistema podem gerar impactos que ultrapassam seus limites geográficos.
Durante a travessia, os participantes percorrem áreas onde a dinâmica das cheias e secas influencia a paisagem, a fauna, a vegetação e os modos de vida locais. O percurso também permite compreender como diferentes grupos construíram sua relação com a região ao longo de, pelo menos, 5.000 anos, incluindo comunidades tradicionais e povos indígenas que permanecem ligados à história da Serra do Amolar.
A rota inclui passagens por locais emblemáticos da região, como as Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs) Eng. Eliezer Batista, Acurizal-Penha e a Aldeia Uberaba Guató, comunidade que fica na Ilha Ínsua. Essa região possui mais de 50 mil hectares, abriga mais de 200 espécies de animais e garante território para proteger ao menos 10 espécies de mamíferos e aves que estão com grau vulnerável e de perigo na lista de animais ameaçados globalmente. Já a Comunidade Guató é conhecida como o “povo canoeiro”, com modo de vida adaptado aos rios e áreas inundáveis. O deslocamento acontece alternando trechos terrestres e aquáticos em um território onde montanhas e áreas alagadas coexistem de forma rara dentro do Pantanal.
“A Travessia Guadakan permite uma aproximação muito diferente da Serra do Amolar. Quem percorre o trajeto consegue compreender como a paisagem muda ao longo do caminho e como biodiversidade, cultura e história estão conectadas nesse território. É uma experiência construída a partir do próprio lugar”, afirma Rodolfo Marçal, gerente de portfólio do FUNBIO.
A travessia foi estruturada no contexto das ações realizadas na região pelo GEF Terrestre, projeto voltado ao desenvolvimento de estratégias de conservação, restauração e manejo para a biodiversidade na Caatinga, ao Pampa e ao Pantanal, biomas brasileiros com menor representatividade no Sistema Nacional de Unidades de Conservação. O projeto, realizado pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), conta com execução financeira do FUNBIO, coordenação técnica do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e parceria de outras instituições ligadas à conservação da biodiversidade.
Para o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), o percurso nasce do desejo de apresentar a Serra do Amolar para além das imagens normalmente associadas ao Pantanal. “Estamos falando de um território com ancestralidade do povo Guató, que conecta regiões, comunidades, tem uma função essencial para reprodução de diferentes espécies de animais, contribui na proteção da biodiversidade e gera uma conexão com a natureza de forma única e singular. Faz parte de uma das áreas mais conservadas do Pantanal”, detalha o presidente do IHP, Ângelo Rabelo.
Com aproximadamente 24 quilômetros de caminhada e 20 quilômetros de percurso aquático em caiaque, a travessia percorre um Pantanal distante dos roteiros convencionais. O trajeto conecta paisagens, histórias e formas de ocupação humana que ajudam a compreender a complexidade de uma das regiões mais singulares do país.

A trilha contribui para mostrar a resiliência que o Pantanal apresenta para enfrentar desafios crescentes relacionados à sua dinâmica hídrica. Mudanças no regime de chuvas, períodos prolongados de seca, aumento da frequência de incêndios e intervenções ao longo dos rios têm afetado o funcionamento desse sistema natural, diretamente dependente do pulso de cheias e vazantes. Esse equilíbrio é fundamental não apenas para o bioma, mas também para a manutenção de processos ecológicos que conectam o Pantanal a outras regiões do país e interliga a alimentação de água para a Bacia do Paraguai-Paraná, o segundo maior sistema hídrico da América do Sul.
Em uma época em que cada vez menos lugares permanecem fora dos grandes circuitos turísticos, a Serra do Amolar segue como um território de descoberta e a Travessia Guadakan surge como uma oportunidade de percorrê-lo lentamente, observando aquilo que normalmente passa despercebido para quem apenas cruza a região.
SERVIÇO
Travessia Guadakan – Serra do Amolar
Local: Serra do Amolar (MS)
Modalidades: caminhada, navegação e caiaque
Nível de esforço: difícil

