A palavra Guadakan significa Pantanal na língua Guató e a Travessia Guadakan, que vem sendo estruturada pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), com engajamento direto da comunidade indígena Guató da Aldeia Uberaba, busca fortalecer o sentimento de pertencimento local, promover o território de forma sustentável e incluir no Sistema Nacional de Trilhas um produto original e único no país. A travessia ainda abre uma outra oportunidade de geração de renda na comunidade, por conta da demanda criada para atendimento na atividade de ecoturismo.
Essa travessia de longa duração alcança pico de 1 mil metros de altura em uma das regiões mais conservadas do Pantanal, na Serra do Amolar, e contribui para criar uma conexão entre a biodiversidade e o ecoturismo. A trilha está dentro do município de Corumbá (MS), mas distante a mais de 200 km de qualquer ligação urbana e só pode ser acessada por meio aquático ou aéreo.
A viabilidade dessa trilha para o ecoturismo e aceiro estratégico na prevenção de incêndio florestal na região do Pantanal, bem como em área fronteiriça com a Bolívia, tem financiamento do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) no âmbito do Projeto Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal (GEF Terrestre), que é coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e tem o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) como agência implementadora e o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade – FUNBIO como agência executora.
A Travessia Guadakan também está sendo viabilizada por meio de capacitações que são realizadas com o projeto “Coletivo Natureza: turismo sustentável pela Serra do Amolar”, que tem a Aliança pela Inclusão Produtiva (AIPÊ) como apoiadora.
A Travessia Guadakan serpenteia o coração da Serra do Amolar ao longo de até 60 km. Essa trilha de longo percurso representa uma rota de exploração e também uma ferramenta multifuncional de conservação. Para o IHP, a trilha é, antes de tudo, uma linha de frente.
“A Travessia Guadakan foi pensada como um ativo de proteção e respeito por toda a ancestralidade presente no território. Ela funciona como uma estratégia de combate a incêndios florestais em áreas remotas, permite o acesso de brigadas, como a Brigada Alto Pantanal, mantida pelo IHP. Além disso, viabiliza a visitação com o turismo, tendo ligado a isso a presença constante de condutores locais, o que fortalece a vigilância do território”, destaca Angelo Rabelo, presidente do IHP.
O manejo mais recente feito na Travessia Guadakan e a capacitação para competências mínimas em condução envolveram o trabalho direto de moradores da Aldeia Guató Uberada, localizada na Ilha Ínsua. Eles estão sendo capacitados para atuarem como condutores na trilha, além de terem conhecimento do trabalho como brigadista.
“A palavra Guadakan na língua Guató significa Pantanal, e o que é Pantanal? Pantanal é vida, é isso que significa para nós, Guató. Essa travessia significa muita coisa, significa resistência, é também significado de força. É uma conexão com a natureza muito grande aqui. Nessa trilha, a natureza dá a mensagem que os ancestrais Guató passaram por aqui. A gente sente essa força dos guerreiros Guató e isso deixa a gente muito feliz”, celebra o cacique da Aldeia Uberaba, Luiz Carlos Souza Alvarenga, que já realizou a travessia.
Conexão e Impacto Nacional
Ao integrar o Sistema Nacional de Trilhas, a Travessia Guadakan ajuda a projetar os Guató, a Serra do Amolar e o Pantanal para o mapa das grandes rotas de longo curso do país, seguindo os padrões globais de conservação. O projeto reforça a visão de que a conservação executada de forma organizada, com estratégia e inclusão das comunidades favorece o desenvolvimento sustentável, geração de renda e fortalece o sentimento de pertencimento.
Mais do que um caminho para visitantes, a trilha representa uma vitória na gestão territorial integrada. A infraestrutura foi planejada para mitigar impactos ambientais e, simultaneamente, servir como um corredor ecológico que possibilita a monitoria da fauna, sendo fundamental para a resiliência do bioma frente aos desafios climáticos atuais.

Um legado para o Pantanal
O sucesso da montagem da Guadakan é fruto de uma articulação técnica entre o IHP, parceiros e a valorização das populações locais. O objetivo é que, ao percorrer a trilha, o visitante compreenda a importância da integridade da Serra do Amolar — o “coração” do Pantanal — e entenda que o ecoturismo é um pilar essencial para a sobrevivência da cultura indígena Guató e da biodiversidade.
Com a finalização desta etapa, o IHP segue trabalhando nos protocolos de manejo e segurança, preparando a Serra do Amolar para receber visitantes que buscam, além de aventura, uma experiência de conexão profunda com uma das áreas mais conservadas e estratégicas do planeta, Patrimônio Natural da Humanidade e que tem a segunda maior densidade de vida selvagem do mundo, com 0,724 em número de espécies por 1.000 km².
Para conhecer mais sobre as etapas de implantação da Travessia Guadakan, também acesse:
Travessia Guadakan une ancestralidade e conservação no Pantanal
Diário de Bordo da montagem da Travessia Guadakan, assista
Lançamento da Travessia Guadakan

Sistema Nacional de Trilhas
Atualmente, o Brasil conta com cerca de 205 trilhas planejadas, somando mais de 41 mil quilômetros, dos quais mais de 16 mil já estão implementados. Dessas, 22 são oficialmente reconhecidas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança Climática (MMA), conectando centenas de municípios, áreas protegidas e comunidades locais em todos os biomas brasileiros. A Travessia Guadakan está em processo de cadastramento e faz parte do registro oficial do governo federal.
Criada em 2018, a RedeTrilhas passa agora a contar com uma estrutura nacional permanente voltada ao planejamento, implantação, gestão, monitoramento e promoção das trilhas. O decreto (nº 15.180/2025) institui instrumentos para fortalecer a governança do setor, entre eles a Estratégia Nacional, o Cadastro Nacional e o Comitê Nacional. A medida também amplia a participação integrada de estados, municípios, comunidades tradicionais, organizações da sociedade civil e iniciativa privada.
Construída ao longo de mais de sete anos por voluntários, montanhistas, ciclistas, gestores públicos, comunidades locais, empreendedores e organizações da sociedade civil, a Rede consolidou-se como um dos maiores movimentos de mobilização socioambiental do país.
O novo decreto que instituiu o Sistema Nacional de Trilhas foi coordenado pelo MMA, Ministério do Turismo e ICMBio e contribui para elevar essa construção coletiva em política pública nacional, confere maior segurança jurídica, capacidade de planejamento e integração entre iniciativas distribuídas por todo o território nacional. O processo contou ainda com a participação do Fórum de Gestores do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) e do Fórum Nacional de Secretários Estaduais de Turismo.
Sobre o IHP
O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos. Fundado em 2002, em Corumbá (MS), atua na conservação e restauração do Pantanal e para a valorização da cultura pantaneira.
Entre as atividades desenvolvidas pela instituição destacam-se a gestão de áreas protegidas, o desenvolvimento e apoio a pesquisas científicas e a promoção de diálogo entre os atores com interesse na área.
As ações prioritárias do IHP são feitas nos pilares para proteção da biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas e atuação conjunta com comunidades tradicionais e de povos originários para apoiar o desenvolvimento sustentável. O IHP também integra o Observatório Pantanal, o Observatório Rodovias Seguras, os PANs Ariranha e Onça-pintada, além do Comitê Estadual do Fogo em Mato Grosso do Sul. Saiba mais em https://institutohomempantaneiro.org.br/
