O Grupo Técnico Onças Urbanas Corumbá-Ladário, formado por instituições como o IBAMA, CENAP/ICMBio, a Polícia Militar Ambiental MS, a Fundação de Meio Ambiente do Pantanal (Prefeitura de Corumbá), a Defesa Civil de Corumbá (Prefeitura de Corumbá), o Instituto Homem Pantaneiro (IHP), a Jaguarte e outros pesquisadores, segue com trabalhos de monitoramento e educação ambiental contínuos.
O GT recebeu o comunicado da população sobre o avistamento de um indivíduo da espécie na região do Canal do Tamengo, área rural de Corumbá, no meio do Pantanal, e que fica muito próxima da zona urbana. Esse local tem registros históricos de onça-pintada, sendo que ano passado houve o caso de maior repercussão com a Corumbella, animal que acabou translocado dessa área para a região mais remota no Pantanal, na Serra do Amolar.
Esse novo avistamento foi comunicado há cerca de uma semana.
O GT vem trabalhando, de forma ininterrupta, com atividades de educação ambiental, limpeza de áreas mais sensíveis, além de outras ações técnicas. Para citar exemplos:
- atividade de educação ambiental “Tem Onça na Rua”, organizada pela Jaguarte com o apoio do GT Onças Urbanas Corumbá–Ladário e de instituições parceiras. A ação foi desenvolvida com estudantes da Escola Municipal CAIC e abordou a presença de onças no ambiente urbano, o comportamento desses animais, os fatores que favorecem sua aproximação e as medidas de prevenção e segurança. A atividade também incluiu a produção de um mural educativo pelas artistas do COMAP pantaneiras, utilizando a arte como ferramenta de sensibilização sobre a coexistência entre pessoas e grandes felinos.
- limpeza na região do Mirante da Capivara por equipes da Prefeitura de Corumbá, com orientações aos moradores;
- sistematização dos dados de monitoramento por armadilhas fotográficas para subsidiar decisões em situações semelhantes;
- delineamento de um Plano de Coexistência Humano-Onças para Corumbá e região;
- Articulações com a Rede Pantaneira pela Coexistência Humano-Onças;
- Monitoramento contínuo da presença de onças nas áreas urbanas e periurbanas de Corumbá e Ladário;
- Instalação de placas educativas nas áreas de ocorrência de onças-pintadas;
- Atividade de educação ambiental com guias turísticos que trabalham a partir do Porto Geral de Corumbá com orientações técnicas.
- Atendimento à população, quando o grupo foi acionado: duas visitas feitas a comunidades nesta última semana de julho de 2026.
A partir do comunicado de avistamento de uma onça-pintada na semana passada, houve a instalação de armadilhas fotográficas para obter um registro oficial do animal. Foi possível a identificação. O que se sabe até o momento, de forma oficial, é que existe uma onça-pintada na região do canal Tamengo. Foi possível observar que se trata de um indivíduo jovem, mas ainda sem observação se é macho ou fêmea.
Houve relatos populares sobre a possibilidade de haver um filhote de onça-pintada, porém isso não foi confirmado com registro oficial.
Desta forma, o GT vem conduzindo o trabalho nessa linha:
Ocorreram duas visitas na região da Cacimba da Saúde e no Mirante da Capivara, nesta última semana de julho de 2026, para ouvir moradores. Não foram feitos registros por populares do animal. Foram dadas orientações sobre procedimentos a serem feitos para evitar a aproximação de animais;
O monitoramento com armadilha fotográfica prossegue em pontos estratégicos para identificar mais detalhes e o comportamento desse indivíduo já avistado e registrado.
Com o apoio da população, como já vem ocorrendo, reforçamos para ações que ajudam na redução de fatores de risco, especialmente a presença de atrativos alimentares e a vulnerabilidade de animais domésticos no período noturno;
O grupo técnico reforça que em casos de avistamento de uma onça-pintada, a população deve avisar imediatamente os órgãos oficiais, como a Polícia Militar Ambiental (67 99266-4052) ou a Defesa Civil (199). É muito importante fornecer informações sobre a localização e comportamento do animal.
Considerações gerais
A ONÇA-PINTADA E O PANTANAL
Pertencente à família Felidae, a onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino do continente americano e o terceiro maior do mundo. Com distribuição originalmente ampla, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, a espécie sofreu severa retração populacional e geográfica devido à perda de habitat, caça ilegal e conflitos com humanos. Atualmente, a onça-pintada está classificada como “quase ameaçada” à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, 2025), e no Brasil, a espécie é considerada vulnerável à extinção (MMA, 2025).
O declínio populacional ou desaparecimento da onça-pintada pode trazer uma série de implicações às dinâmicas dos ecossistemas, como desequilíbrios na diversidade e densidade de presas, que, por sua vez, causam grandes impactos nas comunidades vegetais. Soma-se a esse fator, as exigências ecológicas da espécie por grandes áreas, com boa qualidade de habitats e oferta de presas naturais, o que a torna sensível às perturbações ambientais de origem antrópica.
Por esse motivo, a onça-pintada é considerada uma espécie indicadora da qualidade ambiental e uma espécie guarda-chuva, a partir do termo definido por Frankel e Soulé (1981). Além da importância ecológica, a onça-pintada também possui relevância cultural e econômica nos ecossistemas onde está presente, fomentando o turismo, a cultura e o desenvolvimento sustentável de territórios.
A onça-pintada é considerada uma espécie com hábitos geralmente solitários, noturnos e crepusculares. No entanto, padrões diurnos também podem ser registrados, como por exemplo no Pantanal. Com relação aos hábitos alimentares, a espécie é considerada oportunista com uma grande amplitude de espécies de presas já registradas em sua dieta.
Um predador oportunista consome presas que estejam disponíveis ou vulneráveis no ambiente, baseando-se numa relação que envolve o custo energético, riscos e os benefícios obtidos (MacArthur e Pianka, 1966).
Mamíferos, aves e répteis compreendem as principais presas da onça-pintada (Seymour, 1989).
O Pantanal, um dos biomas brasileiros mais conservados, mantém uma das maiores populações contínuas de onça-pintada fora da região amazônica (Sanderson et al. 2002). No entanto, mesmo nesse bioma, a perda de habitat, a caça com base cultural e retaliatória pelos prejuízos causados pela predação de rebanhos e criações, e os grandes incêndios estão dentre as principais ameaças à espécie (Harris et al. 2005; Bardales et al. 2024).
Nesse bioma, as onças consomem várias espécies de presas naturais, como capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), queixadas (Tayassu pecari) e catetos (Dicotyles tajacu), cervídeos, tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e jacarés (Caiman yacare), além de bovinos, equinos, ovinos, suínos e mesmo cães domésticos (Schaller e Crawshaw, 1980; Dalponte, 2002; Azevedo e Murray, 2007; Porfirio, 2009; Perilli et al., 2016).
Khorozyan et al. (2015) destacam que grandes felinos recorrem à predação de animais domésticos como uma alternativa de subsistência em contextos nos quais a densidade e a biomassa das presas silvestres estão reduzidas. Esse comportamento é ainda mais comum em áreas antropizadas, onde, segundo Kumbhojkar et al. (2020), a disponibilidade de presas domésticas supera a de presas nativas.
Atualmente, os cães estão presentes em uma ampla variedade de ecossistemas, exercendo efeitos negativos sobre a fauna silvestre, que vão desde a predação direta até a interferência nos comportamentos naturais das espécies nativas. Eles também podem competir por recursos alimentares e atuar como vetores na disseminação de patógenos (Young et al. 2011).
Além desses impactos diretos, sua presença pode modificar a estrutura das comunidades animais e os processos ecológicos, favorecendo o declínio de populações silvestres, inclusive de espécies ameaçadas de extinção (Lenth et al. 2008).
O uso do habitat da onça-pintada no Pantanal é positivamente associado a habitats inundados e áreas densamente florestadas e negativamente associado a pastagens, irregularidade do terreno e densidade populacional humana (Alvarenga et al. 2021). Essa última variável teve o efeito negativo mais forte na movimentação dos indivíduos, segundo Alvarenga et al. (2021), demonstrando que a onça-pintada não seleciona ambientes associados à alta concentração de pessoas, como as cidades.
Já a área de vida da espécie no Pantanal varia conforme a disponibilidade de presas e qualidade do habitat, sendo reportado na literatura, estimativas que variaram de 25 a 278 km2 (Morato et al. 2016).
A densidade reportada no bioma varia de 2,9 até 12,4 indivíduos/100 km2 (Schaller e Crawshaw, 1980; Erickson et al. 2022). Cabe ressaltar que a disponibilidade de presas é considerada um dos principais fatores determinando o comportamento de mamíferos carnívoros em suas áreas de ocorrência, influenciando a densidade, sobrevivência e reprodução (Fuller e Sievert, 2001).
COEXISTÊNCIA HUMANO-ONÇAS EM CORUMBÁ
Corumbá é um município localizado no estado de Mato Grosso do Sul, Brasil, às margens do Rio Paraguai, bioma Pantanal. Com uma área de aproximadamente 64.432,45 km², é um dos maiores municípios brasileiros em extensão territorial. A população do município, segundo o Censo do IBGE de 2022, era de aproximadamente 97.000 habitantes.Situado na fronteira com a Bolívia, a cerca de 418 km de Campo Grande (capital do estado), a localização estratégica de Corumbá, a torna um importante ponto de conexão entre o Brasil e países vizinhos, facilitando o comércio e o turismo internacional.
Por estar inserida no bioma Pantanal, a cidade de Corumbá tem um histórico de ocorrência de onças-pintadas e onças-pardas (Puma concolor), que vem sendo monitorado há vários anos pelos órgãos e organizações locais, como a Polícia Militar Ambiental, o Instituto Homem Pantaneiro, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, ICMBio/CENAP, IBAMA e Fundação de Meio Ambiente. Ocorrências na primeira década dos anos 2000, levaram a Fundação de Meio Ambiente do Pantanal e a Defesa Civil de Corumbá, em parceria com outras instituições, a esboçar um primeiro Plano de Contingência em resposta à ocorrência de grandes felinos na área urbana.
E embora um monitoramento sistemático não tenha sido realizado, os dados históricos demonstram que as ocorrências parecem estar relacionadas a eventos de cheia ou incêndios, quando os animais buscam abrigo e presas na área urbana, principalmente nas áreas residenciais mais próximas ao Rio Paraguai.
Desde o primeiro trimestre do ano de 2025, vem sendo reportado pela comunidade em geral, a ocorrência da onça-pintada na região que abrange o posto da PRF, na Rodovia Ramon Gomes, até a região da Cacimba da Saúde, no bairro Cervejaria, ao longo de um trecho que compreende aproximadamente 3,5 km.
Desde então, a Fundação de Meio Ambiente, com apoio da PMA e do IHP vem monitorando a presença das onças na área urbana e apoiando as ações de Educação Ambiental promovidas pela Fundação de Meio Ambiente.
Apesar do histórico de avistamentos na região, nenhum caso de ataque a humanos foi reportado. A recente mudança de relação com a presença da onça-pintada na região possivelmente se decorreu devido ao recente acidente fatal envolvendo uma onça-pintada na região do Touro-Morto, no Pantanal. O caso foi tratado como de elevado risco de reincidência, dada a alta habituação incomum do animal a humanos, e por isso as autoridades optaram por remover o animal da região, com destinação definitiva ao cativeiro.
Apesar de uma decisão técnica e pontual, a retirada de um animal após situação de conflito revelou um precedente para que a população entendesse como sendo este um manejo a ser realizado em outras realidades.
A ampla divulgação do incidente, infelizmente com muitas desinformações associadas, sensacionalismo e fatos irreais, também foi responsável por alterar a percepção e relação sobre a presença da onça-pintada.
Referências bibliográficas consultadas
Seymour, 1989
Silver et al., 2004
Terborgh, 1988
Swank e Teer, 1989
Crawshaw e Quigley 1991; Foster et al. 2013
Rabinowitz e Nottingham, 1986
Gonzalez e Miller, 2002
