Pesquisadores do Instituto Homem Pantaneiro (IHP) registraram, pela primeira vez, um gato-mourisco (Herpailurus yagouaroundi) com pelagem vermelha na Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN) Acurizal, na Serra do Amolar,, região do Pantanal entre Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bolívia. Os registros, obtidos a partir de novembro de 2022 por armadilhas fotográficas, representam um marco para a ciência. A espécie é ameaçada de extinção, conforme o IUCN, desde 2002. Essa pesquisa teve parceria da Brazil Foundation e GM para ser desenvolvida.
Os detalhes foram publicados na Revista Científica Mammalia, em novembro, com o título “Camera trapping reveals reddish phenotype of jaguarundi on the western border of Brazilian Pantanal”. O artigo foi assinado pela coordenadora de projetos do IHP, Grasiela Porfírio; com co-autoria da equipe técnica Mariana Queiroz, Geovani Tonolli, Wener Hugo Arruda Moreno, Sérgio Eduardo Barreto, Paula Cardoso de Lima, Angélica Guerra, Betina Kellermann, Josiel Oliveira e Diego Viana.
Essa descoberta oferece novas perspectivas sobre os processos evolutivos da espécie e sugere que mudanças climáticas no Pantanal estão favorecendo a presença desse fenótipo. O gato-mourisco com pelagem vermelha é mais observado em áreas abertas e que possuem características mais secas com relação ao clima. O registro dele no território, em região com tradição de inundação, sinaliza mudança das condições de terreno.
O monitoramento ambiental feito de forma ininterrupta na RPPN Acurizal já existe há 15 anos e desde então, 18 registros já foram feitos de gato-mourisco, porém com pelagem acinzentada. “A hipótese é que mudanças no clima estão favorecendo com que o Pantanal fique mais seco e que possa se tornar o habitat desse novo fenótipo. É possível que esse animal pode ter vindo da Área de Manejo Integrado San Matías, que fica na Bolívia e faz fronteira com a Serra do Amolar.”
Grasiela Porfírio acrescenta que os registros durante o monitoramento sinalizam a importância de haver perenidade em estudos da biodiversidade. “Em termos de biodiversidade esse resultado amplia o conhecimento científico sobre a diversidade genética, revelada na ocorrência do fenótipo vermelho do gato-mourisco, na borda oeste do Pantanal, mais especificamente na Serra do Amolar. Estratégias de Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) como o REDD+ Serra do Amolar (crédito de carbono) e o projeto para geração de créditos de biodiversidade contribuem para a sustentabilidade das ações desenvolvidas pelo IHP e Rede Amolar, contribuindo para os esforços de conservação da biodiversidade nessa região ímpar do Pantanal.”
Sobre o gato-mourisco
Conhecido como gato-mourisco, mourisco ou jaguarundi, sua presença pode ser identificada desde o México até a região central da Argentina, incluindo o Brasil. Sua densidade populacional é baixa e ele pode estar em florestas tropicais, cerrado, caatinga e áreas alagadas, como o Pantanal. Algumas pessoas o confundem com o irara, mas a diferença é que o corpo é mais alongado.
Ele pode medir entre 48 e 83 cm e a cauda pode ter entre 27 cm e 59 cm. Seu peso varia, em média, de 3,5 quilos a 9 quilos, sendo que os machos são maiores que as fêmeas. Sua pelagem varia de preto para cinza e marrom-avermelhado. Uma diferença dele para outros felinos é que suas pupilas são redondas, diferente do formato elíptico de outros da família Felidae.
Geralmente caçam durante o dia, costumam ser solitários e se alimentam de mamíferos de pequeno e médio porte, bem como de cobras, lagartos, aves, insetos, peixes e anfíbios.
A gestação varia entre 65 e 75 dias e há registro de até quatro filhotes em uma gestação. O período de reprodução pode ocorrer durante todo o ano e a maturidade sexual costuma ser alcançada com 2 anos de idade.
O gato mourisco é um dos felinos menos estudados na América do Sul. Com suas três formas principais (preto-amarronzado, cinza e avermelhado), a espécie é listada como Pouco Preocupante pela IUCN, mas é Vulnerável no Brasil. A forma cinza é a mais comum e foi registrada em vários locais dentro do bioma Pantanal, mas não a forma avermelhada até 2024.
Sobre o Instituto Homem Pantaneiro
O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos. Fundado em 2002, em Corumbá (MS), atua na conservação e preservação do bioma Pantanal e da cultura local.
Entre as atividades desenvolvidas pela instituição destacam-se a gestão de áreas protegidas, o desenvolvimento e apoio a pesquisas científicas e a promoção de diálogo entre os atores com interesse na área.
Os programas que o Instituto atua são Rede Amolar, Cabeceiras do Pantanal, Amolar Experience, Felinos Pantaneiros, Memorial do Homem Pantaneiro, Brigada Alto Pantanal e Estratégias para Conservação da Natureza. Saiba mais em https://institutohomempantaneiro.org.br/. O IHP também integra o Observatorio Pantanal.